Escalando para viver
- 23 de nov. de 2022
- 6 min de leitura
Atualizado: 24 de nov. de 2022
Radical, aventureiro e recém debutado em Tóquio no ano passado, escalar pode ser o início para uma transformação de vida e de hábitos
Por Lucas Pereira
A escalada tornou-se esporte olímpico recentemente, tendo sido disputada pela primeira vez em Tóquio na Olimpíada de 2020, na modalidade Indoor (ambientes fechados e controlados). Por tratar-se de um esporte novo, a escala indoor ainda não possui muitos praticantes, diferente da praticada em rochedos. Entretanto, é um esporte que cresce a cada ano, visando isso Marcus Harder, 45 anos, teve a ideia de criar um ambiente propício para a prática da escalada.
“Eu sou escalador de rocha, sou profissional de educação física, e tinha a vontade de criar algo. Precisávamos de um centro de treinamento para você poder treinar durante a semana, pra poder escalar mais fácil e melhor na rocha. Em Sorocaba não tinha isso, então vislumbrava ter um centro de treinamento para poder melhorar o desempenho físico.” E foi aí que em 2018 surgiu uma academia especializada em escalada.
Marcus, que além de proprietário e fundador da academia, onde também ocupa a função de instrutor de escalada. Escalar é a vida dele. “Eu sou profissional de educação física faz 21 anos, trabalhava de personal em academias. Tinha um amigo que já escalava há muito tempo atrás e ele sempre me chamava por aí. Vamos escalar? Vamos lá? Até que um dia eu aceitei. Topei, e fui com ele. E desde então nunca mais larguei. E isso já faz 20 anos.”
Escalar é uma experiência única. Adrenalina, medo, calma, satisfação e triunfo. São coisas que todos sentem ao escalar. Essa experiência pode ser ainda mais especial, quando você pode reviver essa emoção. Caso de Ana Paula Lima, 28 anos, que escalou pela primeira vez quando era adolescente. “Eu tinha uns 12 anos quando fiz minha primeira escalada, eu gosto, sinto uma adrenalina, ainda mais na hora de descer. Dá um medinho na hora, mas passa rápido. Sinto-me muito bem quando estou subindo”.

Ana Paula Lima escalando em um evento promovido pela academia de Marcus (Foto: Arquivo pessoal)
Na escalada esportiva conhecida como Top Rope, a corda com mosquetão de segurança e freio automático fica presa à cadeirinha (cinto de segurança preso às pernas) da pessoa o tempo todo, ou seja, o escalador está seguro caso escorregue, pois está preso pela corda. Esse tipo de escalada exige que o escalador ao concluir o percurso “se jogue", fazendo um movimento parecido com o praticado no rapel. Tal tarefa pode ser bastante desafiadora, principalmente para praticantes de primeira viagem, pois exige extrema confiança e equilíbrio em ambientes que podem chegar a 15 metros de altura.
Essa aventura pode mudar a vida de muitas pessoas. Mudou a de Marcus Harder, e também a de Marília Zallocco,30 anos. “Conheci o esporte há quatro anos, eu fui a primeira vez com meu irmão, apenas por curiosidade. Meu irmão já escalava. Eu achei muito legal, muito diferente. Por trabalhar a parte mental, física, psicológica. É um esporte completo. Hoje tudo que eu faço é pra escalar. Eu trabalho pra escalar, eu treino pra escalar."
Hoje Marília acumula a rotina de empreendedora, com a de instrutora de escalada, na academia de Marcus. Segundo ela, os benefícios da prática do esporte foram significativos. “Eu costumava ser mais sedentária, então quando eu comecei a escalar, voltei também a estudar. Eu sempre fui de fazer atividade física, mas fiquei um período parada, e aí voltei e comecei a escalar.
E daí você volta com toda aquela força de vontade para a atividade física, porque você precisa fortalecer uma coisa ou outra para aguentar os ombros, e braços. Então eu acho que você se torna uma pessoa mais saudável.”

Marília escalando em uma parede de Rochas (Foto: Arquivo pessoal)
Escalar vai muito além de subir paredes. A parte psicológica é extremamente importante, conta Marcus. “Na escalada, você vai trabalhar muito a parte mental por conta da administração do raciocínio. No momento em que está fazendo força, trabalhamos a parte física, muscular. Acarretando em uma liberação de adrenalina, serotonina, que é a sensação do prazer, isso ocorre por conta do medo atuando junto do exercício. Então, cada vez que um escalador supera um obstáculo, ele supera o medo também. É o mental e físico muito associado.”
O foco é muito importante na escalada, conta Marcus. “Às vezes a pessoa está com problemas particulares, e isso acaba atrapalhando, e ao mesmo tempo influenciando na escalada. Então é necessário aumentar a concentração. Você tem que estar focado no que você está fazendo, para assim poder resolver os problemas pessoais.”
A escalada além de um esporte aventureiro, também pode ser um esporte familiar. É o caso de Leandro Ramos, 37 anos, Selma Copelli 38 anos, e Maria Carolina Ramos 10 anos. Pai, mãe e filha, todos escaladores. “Eu comecei a escalar em 2006. Comecei junto com minha esposa, ela que me levou pra começar a escalada, e aí eu gostei. Começamos a escalar em pedras e tudo mais
E gostamos da ideia e continuamos sempre. Daí abriu a academia. A gente também começou a participar juntos. Aí minha filha, já crescidinha, começou a ir junto com a gente. E agora estão todos juntos fazendo escalada. Uma família inteira escaladora” conta Leandro.

Leandro e a Filha Maria Carolina escalando juntos (Foto: Arquivo pessoal)
“Dá medo, mas é legal. É bem emocionante, ainda mais quando está no topo”, conta Maria Carolina fala que sente ao escalar.
Selma mãe de Maria Carolina dá todo o apoio a filha de 10 anos caso a filha decida seguir carreira no esporte. Porém, a mãe sente algumas preocupações, “Então eu daria total apoio, mas a minha única preocupação seria justamente isso a questão financeira, porque é muito difícil aqui no Brasil conseguir o apoio financeiro, conseguir patrocínio. Para que a gente conseguisse levá-la para participar dos campeonatos, para ela conseguir até chegar na Olimpíada.”
Além dos problemas financeiros que alguns atletas brasileiros sofrem, Selma tem receio de outros percalços que a filha enfrentaria. Porque a mesma já passou por alguns problemas quando era jovem. “Eu sofri muito machismo na época. Inclusive do meu pai, ele é muito machista. E na cabeça dele ele falava assim que eu ia atrás de homem nas paredes de escalada. Dizia que eu ia lá pra arrumar namorado. E na minha época era um esporte predominantemente de homens. Era muito difícil ter outras mulheres. Depois de um tempo começaram a aparecer outras meninas.”
Selma vê com felicidade e alívio que houve um pouco de transformações de quando ela começou a escalar, para os dias atuais. “Agora o esporte se popularizou. Agora você vê que está ficando mais visto, e que as meninas estão se sentindo livres, para poder experimentar mais coisas. Isso está me deixando feliz, porque realmente quando eu comecei o machismo era muito forte”. Selma atualmente não pode escalar devido a problemas médicos, mas nem por isso deixa de acompanhar o marido e filha em suas aventuras.
No Brasil a escalada tipo Boulder(escalada horizontal) vem se popularizando bastante, sendo ela a modalidade mais indicada, e segura para iniciantes. Por contar com um colchão de segurança e paredes de no máximo 6 metros de altura. “A escalada funciona de uma forma mais autodidata. A gente monta as vias, que é um desenho que o escalador vai subir na parede e a navegação que ele vai seguir na parede. A gente monta por cores. Então se a pessoa pegar na garra rosa, ela vai seguir uma sequência de garras rosa, até o final”, conta Marcus sobre a dinâmica do esporte.
“É um processo pedagógico por trás do ginásio, que só quem vê é os profissionais. Então qualquer pessoa pode chegar lá, que ela vai sair escalando. Cada uma das vias de escalada tem um grau de dificuldade, desde o iniciante até o profissional", conta Marcus. E todo esse processo tem uma duração para continuar a progressão do aluno. “A cada 45 dias a gente tira todas as agarras da parede, e põe todos os desenhos novos como se fosse um exercício da musculação, em que se acrescenta um peso pra poder se superar”, acrescenta o instrutor.

Maria Carolina Ramos escalando na modalidade Boulder (Foto: Arquivo pessoal)
E se você gostou desse esporte e quer praticar, saiba do que você vai precisar. “Na modalidade escalada esportiva, você precisa ter equipamentos de segurança, como uma cadeirinha, e também precisa de uma corda. Já na modalidade que a gente tem na academia, que é a Boulder, a segurança é feita pelo colchão Trash pop. Porém, em ambas as modalidades o escalador precisa de uma sapatilha própria para o esporte”, conta Marcus.
Então pegue sua sapatilha, e vá viver essa aventura. Bora escalar?




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