top of page

Muito além do que se vê

  • 23 de nov. de 2022
  • 4 min de leitura

Atualizado: 24 de nov. de 2022

Um lado que nem todos têm acesso no mundo concorrido e incerto do futebol


Por Felipe Lopes



Paixão que move milhões de adeptos no mundo todo (Foto: Felipe Almeida - Arquivo Pessoal)


Quando falamos em futebol, e na vida dos profissionais do esporte, principalmente masculino, uma grande parte da sociedade enxerga como um mundo luxuoso, com muito glamour e sem nenhum tipo de problemas, mas, na realidade, não é bem assim que as coisas acontecem.


Atualmente, no Brasil, segundo dados da plataforma CupomValido, que em 2021 coletou dados da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e da Statista e Ernst & Young, 55% dos profissionais da classe recebem 1 salário mínimo, 33% ganham até R$5.000,00 e apenas 12% recebem mais que esse valor.


E a falta de informação sobre esses valores acabam causando uma visão errada da classe para com a sociedade e grupos como torcedores. Que com certa frequência cobram, muitas vezes de forma não pacífica, os profissionais do meio.


O Brasil é conhecido como país do futebol, celeiro de diversos talentos que brilharam e ainda brilham mundo afora.


O sonho dos meninos que nascem e crescem com a cultura do esporte mais popular do país é se tornar jogador profissional de futebol. Desde cedo a magia do esporte acompanha e encanta a todos. E com Douglas Baldini, goleiro do Real Noroeste, time do Espírito Santo, que neste ano disputou a 4.ª divisão do Campeonato Brasileiro não foi diferente.



“A maior parte das pessoas não sabem o que é o futebol no dia a dia” Douglas Baldini – Goleiro, 27 anos (Foto: Divulgação Paraná Clube)


Douglas iniciou sua carreira ainda cedo, com o incentivo do pai, aos 16 anos conquistou seu espaço na base do São Bento, clube de Sorocaba e aos 20 anos foi profissionalizado. Douglas já esteve presente em diversos clubes do cenário nacional como Paraná Clube, Asa de Arapiraca, Barretos Esporte Clube e entre outros.


Ele comenta que a maioria das pessoas não conhece a fundo o mundo do futebol no dia a dia:


“No geral estão acostumados a acompanhar os grandes clubes, os grandes jogadores, que na verdade na nossa classe, são minoria. Há muita diferença sim na sociedade, pessoas acham que nós que estamos em clubes menores ou médios, somos iguais os que estão em times grandes. Acham que vivemos no glamour, de maneira fácil, mas nada vem fácil, tudo acontece em cima de muito trabalho e mesmo assim, não são todos que vencem”

Sobre cobranças excessivas, Douglas não tira a razão do torcedor, pois segundo ele, os torcedores agem com a emoção:


“Muitas vezes o torcedor não entende que o jogo acontece com duas equipes, que buscam o mesmo objetivo, que um dia você vai estar bem e no outro mal, como qualquer ser humano. Tem muitos torcedores que querem que você esteja bem e ganhe todos os dias, mas nem sempre isso vai acontecer. Acabam pensando que não treinamos, só vamos para shoppings…”

Felipe Tavares Paes Lopes, professor, pós graduado em Comunicação e Cultura, pesquisador de um grupo de Mídia, Esporte e Lazer (GPMEL) e que tem experiência em culturas torcedoras, violência no futebol e jornalismo esportivo, também comenta essa relação entre sociedade e jogadores. O pesquisador cita que essa não se pode existir essa divisão, que ambos fazem e constituem a mesma sociedade e que também, existem diversos tipos de cobranças:


“Acredito que as expectativas são diferentes e as cobranças também são, consequentemente. Também dentro de clubes, existem variações de acordo com grupos de torcedores de acordo com suas próprias morais. Há grupos que entendem, que talvez uma cobrança "mais agressiva” é legítima, tem grupos que talvez não entendam dessa forma, varia bastante esse tipo de cobrança".

Felipe também cita a questão emocional do torcedor:


“O torcedor, muitas vezes, enfrenta dificuldades enormes para poder acompanhar o clube nos mais diferentes lugares. O cara que por exemplo, vai muitas vezes ao CT (Centro de treinamento) (Para reclamar) é o mesmo cara que saiu de São Paulo e foi com uma caravana para Belém do Pará acompanhar o clube".

Sobre formas de melhoras nessa percepção e até mesmo visão da realidade Douglas e Felipe concordam que os clubes com suas ações de marketing que estreitam mais essa relação torcedor e jogador, apresentam bons resultados.


Douglas destaca que o conhecimento sobre o dia a dia seria bastante interessante:


“Era bom que as pessoas tivessem mais proximidade do nosso dia a dia, para ver que todos trabalham, que todos se dedicam, que todos estão em busca do melhor, porque nós não buscamos somente por nós. A gente sempre fala que representamos nossa família, a família de companheiros de treinadores, de todo o staff… De até pessoas que ninguém tem a oportunidade de conhecer dentro dos clubes que são os motoristas, as “tias” da cozinha. Brigamos e lutamos por todos eles, então nunca entramos em campo para perder, entramos sempre para dar o nosso melhor.”

Felipe aborda sobre a desigualdade social:


“Trata-se de uma questão estrutural do país, obviamente que a percepção de desigualdade ela não se dá apenas no futebol, mas no país de uma forma geral, ela é um grande elemento de geração de frustração e tudo mais. Então se falarmos de uma forma mais ampla e estrutural, o enfrentamento dessas desigualdades sociais.”

Importante também é o pensamento no futuro, afinal, profissões são passageiras e a de jogadores de futebol duram ainda menos, por conta do excesso de esforço corporal, por isso Douglas planeja seus próximos passos todos os dias:


“Procuro ocupar meu tempo com o hobby novo que adquiri, que é ler, sempre procuro estar lendo e me atualizando sobre minha profissão, onde busco olhar goleiros que me inspiram e tentar aprender com goleiros que venceram na profissão e procuro também me atualizar em outras profissões, pois do mesmo jeito que o futebol vem rápido, ele vai rápido, então sempre que posso estudo, atualmente trabalho também com mídias sociais e quero fazer minha faculdade de Educação Física e se aperfeiçoar cada vez mais na vida…”

Ambas as partes têm suas razões e motivos, o importante e inegociável deve ser o respeito e a identificação de que todos querem sempre o melhor para si e para quem representam.




Comentários


Revista Adrenalina

A revista foi criada por estudantes de Jornalismo do 6º semestre de 2022, para a disciplina de Projeto Interdisciplinar: Revista Digital, da Universidade de Sorocaba.

© 25 de novembro de 2022 

bottom of page